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Jahd,toda a História PDF Imprimir E-mail

Reflexão

Fotografando  na região de Sorocaba, um dia eu e o Johnny, fomos visitar minha amiga Lenita em seu haras.Como era de costume, eu e Lenita vimos juntos praticamente todos os animais da sua criação. 

 

 

Já estávamos de volta vendo os últimos animais nas cocheiras de baixo, quando Lenita me impede de abrir uma das portas. Me confessou que não queria ver aquele animal. Ele havia se acidentado e vê-lo significava lembrar de todo os momentos de tensão que passou.. Pedi permissão para abrir, ela se afastou para um ponto que não dava visão e eu abri a baia. Fiquei surpreso ao ver um potrinho castanho com belíssimo conjunto, com cerca de 6 meses, que assustado se colocou  na outra extremidade da baia. Minha profissão de fotografo desses animais havia me treinado para ver qualidades e defeitos em poucos segundos e apesar da pelagem prejudicada pela idade e pelo acidente sofrido, o que ví ali somava  só qualidades. Imediatamente transmiti minhas impressões para a Lenita que irredutível me disse que havia tomado a decisão de não manter aquele potro no haras. Foi ai que externei minha intenção de comprá-lo. 

 

A decisão foi acolhida com alegria e fomos para o escritório tomar um café, comemorar e acertar os detalhes de pagamento do animal. Naturalmente todo este processo demorou bem mais do que o previsto e voltamos à São Paulo já passavam das 3 da tarde.

 

Fomos direto para o Shopping Iguatemi, para comer alguma coisa. Lá encontramos um amigo, o criador de cavalos árabes, Proprietário de um lindo haras em Campos do Jordão. Disse a ele que estava ali para comer algo rapidamente e ele deixou seus afazeres para nos acompanhar até um local onde serviam lanches no andar de cima. Sentamos, pedimos nosso sanduíche e contei a ele sobre aquele encontro no haras, a compra do Jahd e minha alegria com aquele momento. Para minha grande surpresa, ele estendeu sua mão sobre a pequena mesa e me disse: -- "Sou teu sócio". Fiquei petrificado, mas imediatamente imaginei que seria um lindo presente para o Jahd, viver em um lugar tão bonito como o seu haras, sob os cuidados de um gerente competente e muito carinhoso com os animais. Em um movimento quase que involuntário  também estendi minha mão e consenti com a sociedade. Mais tarde, pensando melhor, achei que tinha feito um bom negócio por se tratar de um amigo pelo qual nutria um grande carinho, com um belo haras e com mentalidade aberta para entender um bom plano de divulgação de um animal, coisa que na época eu dominava totalmente.

 

Ali mesmo no shopping combinamos que o animal ficaria em seu haras, sob os cuidados do seu gerente. O negócio foi todo feito em base a nossa palavra daquele dia. Ele perguntou-me se poderia retirar o potro no Haras,  ao que respondi que sim. Avisei a Lenita do nosso negócio e alguns dias depois seu gerente desceu de Campos do Jordão com o caminhãozinho do haras e foi retirar o Jahd no Haras Meia Lua, em Sorocaba.

 

Depois de mais alguns dias marcamos de nos encontrar no Stud Book do Cavalo Árabe, que por reformas no prédio da ABCCA, naquela época encontrava-se em uma casa ao lado da entrada do Parque da Água Branca, no portão da Germaine Bouchard. Ao nos dirigirmos ao balcão meu amigo me perguntou o que eu queria fazer com aquele documento de transferência que a Lenita tinha entregue ao seu gerente, quando da retirada do Jahd em sua fazenda. Pensei no incômodo de ter que se utilizar de duas assinaturas para comunicação de qualquer coisa junto a ABCCA.  Na minha vida de constantes viagens achei que seria mais prático que o animal ficasse em nome do haras do meu amigo.

 

Este pequeno detalhe, para mim e no próprio meio sem importância, causaria muitos transtornos pessoais, profissionais e para a criação de cavalos no arco dos próximos anos.  

 

 

 

Continuação

 

 

 

O gerente do haras não gostou nada do aspecto daquele potro que ele tinha ido buscar no Haras Meia Lua, em  Sorocaba.

 

Uma noite, uns dois dias depois que ele chegou em sua nova casa, eu liguei para o Haras para saber como ele estava se adaptando. Percebi, pela forma de se expressar, que o Victor não havia gostado muito do animal. Pedi que ele fosse sincero em sua avaliação ao que ele me respondeu que na verdade ele não parecia nada especial como eu havia dito. Eu ri e lancei um desafio; que ele mantivesse o potro na cocheira por uns noventa dias, escovasse com freqüência que eu estaria ligando depois desse período para marcar um dia para subir até Campos do Jordão, ocasião em que eu gostaria de ouvir novamente sua avaliação.

 

Após este período eu liguei como havia prometido, marquei um dia e subi. Fui até o Haras  mas não consegui entrar. O portão estava trancado. Desci novamente até a cidade para procurar um orelhão e ligar para o Victor. Era 1991 e naquela época não havia  ainda a facilidade do celular. Liguei, ele atendeu e eu disse que não havia conseguido entrar. Ele riu e me disse que o cavalo era tão bom que valia a pena sofrer um pouco para vê-lo.

 

Subi novamente, entrei e fui direto para as cocheiras onde ele me esperava. Victor estava todo radiante e me disse que realmente as coisas tinham mudado muito desde que Jahd havia chegado e ele estava lindo, mostrando todas as suas qualidades como futuro reprodutor. Ele tinha mudado totalmente de opinião depois que toda a pelagem de potro foi substituída pelos curtos e brilhantes pelos de um  animal encocheirado.

 

Naquele ano subi muitas vezes para Campos, para ver o nosso cavalo e sua evolução não podia ser melhor. Ao atingir um ano e meio comecei a fotografá-lo na busca de imagens que pudessem mostrar aos criadores sua importância morfológica visto que seus atributos genéticos estavam mais que claros, uma vez que sua mãe Just a Dream, era uma das mais lindas e completas filhas de Bey Shah, na época considerado um dos principais reprodutores da raça e sem dúvidas aquele que produzia as melhores e bem estruturadas matrizes da raça no mundo.

 

Apesar de ainda não ser apto para reprodução, com cerca de 2 anos fiz uma reunião com meu sócio e decidimos que já era hora de apresentá-lo aos criadores através da publicação da Editora Seven, “Guia dos Garanhões”. Combinamos que eu faria as fotos, os textos e dividiríamos os custos da publicação. Este e outros detalhes acabaram  me salvando de uma situação onde provavelmente seria impossível comprovar minha co-propriedade no Jahd.

 

Dois anos mais tarde resolvemos enviar o Jahd para o Centro de Treinamento do Haras Paciência no Rio de Janeiro a fim de ser preparado para disputar a Exposição Nacional Brasileira que aquele ano teria como sede o Rio Centro, na Barra da Tijuca. Infelizmente o Jahd chegou ao evento fora de peso e resolvemos não apresentá-lo. O fato porém de ter ficado por seis meses em treinamento no Haras Paciência de Nick e Lucila Lins foi determinante para que as verdades viessem a tona no momento certo.

 

Parte III 

 

Embora Jahd não tivesse completado os três anos, resolvemos experimenta-lo na reprodução

No ano seguinte começam a nascer seus primeiros filhos no Haras onde ele se encontrava, várias éguas porem tinham sido vendidas cobertas por Jahd  e estavam em outros criatórios.

Logo seus filhos começam aparecer nas pistas de exposição e começa ficar bem clara a idéia de que ali tínhamos um grande reprodutor da raça. Foi ao despontar como um grande reprodutor que ele começa a despertar interesses outros na cabeça do meu "sócio".

 

Na verdade, nos frigir dos ovos, eu tinha dado o primeiro passo para isto uma vez que a seu tempo, quando fomos registrar o animal no Studbook do Cavalo Árabe, eu permiti que ele fosse inscrito em nome do Haras do meu "sócio" uma vez que sabíamos não ser esta a atitude que determinaria a real propriedade sobre o  Jahd. Haviam muitos outros casos de animais que, embora pertencessem ainda a seus antigos donos não tinham sido transferidos imediatamente a seus novos proprietários. A razão de ter consentido este registro é porque  o Jahd ficaria no haras e no futuro os comunicados de cobertura poderiam ser encaminhados a ABCCA, sem que para isso eu precisasse vir para assiná-los. Na época, como fotografo de cavalos, eu viajava muito e achei mais coerente deixar esta burocracia para o gerente do haras.

 

Por outro lado eu já estava neste mercado a muitos anos e era totalmente inconcebível que alguém passasse sobre o próprio nome diante dos outros criadores para faturar algum dinheiro. Esta possibilidade ficava ainda mais remota porque meu "sócio era um grande amigo meu"  e dada a sua situação financeira, seria a última pessoa que faria isso para alguém.

 

Bom, me enganei.  O cara na verdade era o contrário de tudo isso. Seu Deus era o dinheiro, qualquer dinheiro.

 

Sem que eu fosse ao menos avisado ele fez um negócio com um conterrâneo seu, (pelo que soube em conversa com outros criadores) ele alugou o cavalo por trinta mil dólares por 2 anos para este seu conterrâneo e simplesmente mandou levar o cavalo pra lá.

 

Para seu azar, poucos dias depois fui chamado para fotografar em um haras visinho ao deste senhor Libanês e soube pelo treinador que o Jahd estava lá. Não dava pra acreditar, mais terminei as fotos e me dirigi ao haras visinho onde de fato encontrei o Jahd. Percebi também que os funcionários deste haras sabiam que o Jahd era meu pois, sem dizer o nome do cavalo, pedi que mostrassem meu animal ao que o veterinário me acompanhou até a cocheira do Jahd.

 

Durante os próximos trinta dias liguei várias vezes para os escritórios do meu "sócio" mas ele nunca estava. Procurei ficar calmo e não fazer julgamento precipitado. Sabe-se lá o que poderia ter acontecido.

 

Diante porem da evidente intenção de não me encontrar e dos boatos de que ele havia feito um bom negócio com o Jahd, não dava pra pensar outra coisa.

 

Vendo que não tinha como resolver este assunto decidi por entrar com um processo para reaver o que me estava sendo roubado sem a menor cerimônia.

 

E ai que  começo a notar que Deus já estava ao meu lado desde o início do roubo.

 

Fui até Sorocaba contei rapidamente o que estava acontecendo para a Lenita, que havia me vendido o jahd e ela muito correta como sempre foi e conhecendo a verdade dos fatos, levantou-se, localizou sua agenda de 1991,  ano em que o Jahd nasceu, verificou os detalhes do negócio que havíamos feito, foi até a escrivania pegou um papel timbrado do haras, colocou-o em uma máquina de escrever antiga e redigiu na hora um documento do tipo "a quem possa interessar" relatando tudo sobre a venda do Jahd, declarando inclusive que havia vendido o animal para mim. Sai dali, fui até um cartório no centro de Sorocaba e  reconheci sua firma. Da mesma forma fui até a editora Seven, que editava todo ano o Guia dos Garanhões e muito solicitos eles reviraram seu arquivo morto em busca de documentos que provavam que em todas as publicações das quais o Jahd participou, a metade do valor foi pago por mim, com numeração das notas e valores que comprovavam o fato.

 

O mesmo aconteceu no Haras Pasciência do Rio de Janeiro, local onde Jahd permaneceu por 6 meses em preparação para ser apresentado em pista na Exposição Nacional. Ali também fui recebido com muita atenção e ali também eles reviraram os arquivos da empresa em busca de documentos que comprovassem que eu sempre arquei com metade dos custos de treinamento e estadia do Jahd naquele haras. Faxs de cobrança datados e expedidos pelo haras comprovavam que eu tinha arcado com 50% de todos os gastos.

 

Entramos com todos estes documentos anexados a um processo  e vejam, 15 dias depois recebo um oficial de justiça em casa que me entrega um comunicado oficial onde o "sócio" declara que "comprou o animal da Lenita, que eu não tinha nada a ver com o Jahd e que se eu continuasse usando seu nome sofreria as penas da lei."  

 

De cara o camarada se entregava a primeira mentira oficialmente, porque 15 dias antes o Juiz já havia recebido meu processo, com algumas provas incontestáveis de que o animal me pertencia, incluindo uma declaração da própria criadora informando ter vendido o animal para mim.

 

A partir deste ponto foram 12 anos de luta judicial que culminaram com uma vitória incontestável. O resumo do Juiz sobre o processo foi "de que a justiça se baseia em provas e não em circunstâncias. Que eu havia apresentado provas e que a outra parte apresentara somente circunstâncias"

 

Mesmo diante de provas tão contundentes o camarada continuou a usar todos os recursos que a lei permitia, levando o caso ao Supremo. Perdeu em todas as fazes, foram indeferidos todos os seus agravos e hoje ainda estamos em lite e o cavalo impedido de reproduzir com todo o vigor, uma vez que suas qualidades reprodutivas se mostraram extraordinárias com filhos campeões em vários países e em várias categorias.

 

Sua justificativa diante dos outros criadores da raça é de que eu apenas fotografei o cavalo a seu pedido  e maliciosamente assinei a foto com a intenção de no futuro reclamar a posse sobre o animal. 

Imagino o pânico que se instaurou entre os criadores aos quais eu havia fotografado, não um mais muitos animais, ao saber que eu estaria processando um criador por ter assinado uma foto do seu cavalo, uma vez que eu sempre assinei todas as minhas melhores fotos, como de praxe o fazem todos os fotógrafos de animais.

 

Quem me conhecia bem e sabia detalhes da história. sabia que isso não passava de uma mentira covarde de quem era habituado com este mundo de mentiras e traições, mas poucas pessoas estavam tão próximas a ponto de conhecer detalhes e consequentemente saber da verdade.

 

Minha vida profissional como fotografo de animais aos poucos despencou. Alguns criadores precisando usar minhas fotos em alguma publicação chegavam ao ponto de pedir para que minha assinatura fosse apagada. Até hoje existem fotos minhas de animais no Stud book da ABCCA, cuja assinatura foi excluída.

Mas tudo bem. Deus continua mostrando sua presença em cada detalhe deste processo e eu tenho certeza que no final todos vão saber o que realmente aconteceu e não mais vão acreditar nesta enorme panela de mentiras que hoje circulam no meio sobre mim. 

 

 

 

 

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